Avança. O pé direito sobre a areia perscrutando as camadas de humidade que ainda restam por baixo. O pé esquerdo mantém-se quieto, num ângulo de 60 º com a horizontal. Param de repente os dois e vejo o pulsar de uma veia no dorso inferior da perna direita. Adivinho o golfar do sangue quente a descer em direcção à areia aquecida pelo sol. Com uma faca bem afiadinha faço uma pequena incisão e começo a tingir a areia de vermelho. A coagulação é rápida e eficaz sobre este sol de Agosto. O que não coagula infiltra-se lentamente e deixa elevar bolinhas de ar que emanam à medida que os espaços vazios são cheios de sangue. Vou à borda de água pressentindo os veios encarados a diluírem-se rapidamente numa maré de sal. Alimento um cardume de peixes pequeninos. Sinto-me útil e o ardor do sal faz-me sentir vivo. Mergulho por fim para dar uma prova de vida. Sustenho a respiração debaixo de água até ficar quase sem ar. O iodo e o asco das algas inundam as narinas e arranham as cordas vocais. Os ouvidos ficam cheios de areia. Volto ao de cima. A horizontalidade pura do lugar dá-me a vontade de tontura e mergulho a pique para bater com a cabeça numa rocha. Nunca partira a cabeça em criança e chegara a altura. Nessa altura uns cinco cardumes de peixes diferentes alimentavam-se à minha custa. Deixei-os estar. Preferia morrer assim do que ser comido pelos vermes da terra. Honraria os peixes pois foi aqui que começou a vida na terra. A minha haveria de acabar portanto aqui. A dar de comer aos peixes.

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