quarta-feira, 31 de março de 2010







Esta tarde cortei o rabo a uma osga. Dei-lhe com a cabo de uma vassoura. O rabo fugiu e o torso e a cabeça ficaram a espernear. Um fio de sangue levemente azulado e uma goma rosa clara impregnaram as frestas da pedra do chão da minha varanda. Em silêncio. Muda acabou por morrer. De olhos abertos e com as ventosas bem presas ao chão. Não consegui tirá-la. Usei mil e um produtos abrasivos. Ácido muriático, umas espátulas velhas que o pintor tinha deixado, Sonasol Verde Amoniacal, uns pingos de Wc Pato para ajudar. Nada. Atolei então a varanda com uma camada de terra quase a transbordar a soleira da porta. Preenchi até o seu nível raspar as franjas mal cortadas da rede verde que pus para o gato não sair. Tinha tornado a minha varanda num canteiro. Reguei a terra. O cheiro a húmus era o melhor perfume que poderia desejar. Tinha agora o espaço que ansiara para fazer uma horta na varanda. Plantei as primeiras alfaces, couves e beterrabas, tomando em atenção as consociações e as alelopatias.
A primeira colheita foi primorosa. Comida directamente da terra. As mandíbulas descreveram a máxima abertura com o rosto ligeiramente inclinado para apanhá-las pelos talos. As partículas de terra enchiam as papilas gustativas com o calor que as aquecera durante o dia e traziam-me a frescura do orvalho dessa manhã. As beterrabas sabiam primorosamente a terra. Deitavam um fio de mosto levemente azulado e uma goma rosa clara que impregnava as linhas do meu pescoço e se alojava nas pregas da minha barriga e inundavam o umbigo. Quase a transbordar vi a sair dele o rabo de uma osga. As minúsculas protuberâncias esféricas da sua pele faziam escorrer este fluido para fora, para a linha inferior do meu torso, junto da prega que o cinto marcada acima das calças. O rabo da osga ficou especado, a olhar para baixo, apontando o seu troço final em movimentos descendentes, aflorando a terra. Insistentemente como a broca de um dentista inexperiente. Mergulhou. Por fim. Nesse dia o aroma da terra tornou-se metálico, queimava de castanho o rebordo da soleira e fazia latejar asmanchas de salitre do lado de dento, junto janela. Fui dormir. Na manhã seguinte todas as culturas tinham secado. No meio, um pequeno buraquinho assinalara que a osga havia saído. A partir dai olhou-me todas as noites junto de uma fresta quase por baixo do telhado. Nunca mais voltei a cultivar nada. Mas aquela porção de terra era o meu tesouro. Nos dias de chuva conseguia emanar o perfume mais sublime de terra molhada e no verão o calor que emanava à noite era o consolo das mãos que assentam para se despedirem em agradecimento desse dia.

Sem comentários:

Enviar um comentário